
A Liturgia
quarenta anos após o Concílio Vaticano II
No mês que findou inúmeros documentos do magistério foram
escritos, relembrando os 40 anos da Sacrosanctum Concilium
(carta magna da Liturgia). O Santo Padre João Pulo II também
nos presenteou com a Carta Apostólica: Spiritus et Sponsa de
4 de dezembro de 2003. Gostaria, como liturgista, à luz
destes documentos focalizar alguns aspectos fundamentais
para uma verdadeira vivência da Liturgia.
Há na liturgia um princípio básico: a liturgia é em primeiro
lugar "a obra de Deus em nós" antes de ser nossa obra para
Deus. A liturgia é, em sua própria essência, um datum, um
dom. Ela nos ultrapassa e existe bem antes que tenhamos
podido nela participar. O sujeito ativo da liturgia é Cristo
ressuscitado. É ele o primeiro e único Sumo Sacerdote, o
único capaz de oferecer o culto a Deus e santificar a
assembléia. Não se trata apenas de uma verdade teológica
abstrata; o fato deve tornar-se evidente e visível na
liturgia. O coração da liturgia já se encontra nos gestos da
sua instituição pelo Senhor. Não quer dizer que a pessoa ou
comunidade que celebra não tenha jamais poder ou autorização
de apelar para sua criatividade. A comunidade é criadora,
mas não é uma "instância de criação". Doutra forma, a
liturgia não seria mais epifania dos mistérios de Cristo
através do serviço da Igreja, a continuação de sua
encarnação, crucifixão e ressurreição, a "encarnação" dum
projeto divino na história e no mundo das pessoas humanas,
por meio de símbolos sagrados. Em tal situação, a liturgia
nada mais seria do que auto-celebração da comunidade.
A liturgia "preexiste". A comunidade que celebra nela
penetra como numa arquitetura preestabelecida, divina e
espiritual. Em certa medida, é igualmente determinada pelo
lugar de Cristo e de seus mistérios na história. A
Eucaristia não é em si uma "refeição sagrada" mas antes a
atualização de uma refeição espiritual; aquele que Cristo
tomou com os discípulos na véspera de sua paixão. Neste
sentido, a liturgia não pode jamais tornar-se uma fina
refeição da comunidade celebrante. Não somos criadores;
somos servos e guardas dos mistérios. Não somos
proprietários, nem autores.
Atitude fundamental do Homo liturgicus (Pessoa litúrgica)
A atitude fundamental do homo liturgicus – pessoal e
coletivamente- supõe a receptividade, a escuta, o dom de si
e a capacidade de se relativizar. É a atitude de fé e da
obediência fiel. Não é porque uma caricatura desta atitude
de obediência conduziu no passado a um levantamento e a um
rubricismo servil e absurdo que se viu diminuindo o senso de
"penetrar naquilo que nos ultrapassa".
O homo liturgicus não manipula e o gesto que ele faz não se
reduz a uma pressão de si ou a um desabrochar pessoal. É uma
atitude de orientação para Deus, de escuta, de obediência,
acolhimento reconhecido, de encantamento, de adoração e de
louvor. É atitude que consiste em escutar e ver, e que
Guardini (grande liturgista alemão) denominava "contemplar",
atitude desconhecida do homo faber (homem produtor) de
muitos de nós. Em resumo, a atitude fundamental do homo
liturgicus é uma atitude de oração, de oferta de nós mesmos
a Deus para que sua vontade se cumpra em nós.
Não é de surpreender que numa época como a nossa, que
intervém ativamente na realidade cotidiana e submete esta
realidade ao pensamento científico e à perícia tecnológica,
seja particularmente difícil uma atitude litúrgica. A
dimensão "contemplativa" da pessoa humana hoje não é mais
evidente, nessas condições; o cerne da liturgia é ainda
menos evidente. A participação ativa deve, pois, ser
recolocada nessa atitude "contemplativa" e ter, por
conseguinte suas características especificas. Ao se tratar
de liturgia, é necessário ater-se á seguinte regra: primeiro
a experiência, primeiro "viver" a liturgia, e em seguida
refletir e explicar. Os olhos do coração devem abrir-se
antes dos olhos do intelecto porque só se entende de fato a
liturgia com a inteligência do coração. Tudo isso tem
conseqüências para as equipes de liturgia. Os que querem
atuar sobre a liturgia, deverão primeiro escutar o tema com
atenção e participar da celebração da liturgia em seu estado
atual. Sem isso, toda meta litúrgica nada mais será do que
"expressão de si próprio" em vez de modelar uma entidade já
constituída, que mergulha as raízes na tradição litúrgica do
Antigo e do Novo Testamento e na Tradição viva da Igreja.
O liturgista digno deste nome começa por escutar, meditar,
rezar e interiorizar. Só depois pode "modular".Aqui está a
mística da verdadeira reforma litúrgica como a sonhou o
Concílio Vaticano II.
Pe. Luiz Morgano
|